segunda-feira, 4 de junho de 2012

Dias de eterna duração



Um dia desses me peguei organizando selos antigos que jamais cheguei a retirar dos envelopes em que foram usados. Na verdade eles se somaram a uma coleção que fiz durante a adolescência, herdados de um tio com mais curiosidade do que dotes filatélicos. Décadas se passaram e os selos ficaram esquecidos numa caixa, dentro de um caderno de científico dos anos cinqüenta, pertencente à irmã do juntador das peças. Foi uma viagem diferente separá-los por países que nem existem mais. Numa definição da filatelia levada a sério, os selos são pequenas janelas para o mundo. Total fundamento.
No caso dos selos, em razão da infinidade dos temas existentes, o filatelista precisa escolher aquele ao qual vai se dedicar. O hábito de colecionar requer paciência e meticulosidade. Confesso não possuir essas virtudes. Ainda assim consegui reunir amigos ao longo da vida, preciosa coleção da qual me orgulho muito, sobretudo pela temática diferente de suas características. Por mera coincidência, dias após organizar meus selos, participei de uma reunião com antigos amigos dos Correios. Trabalhei com eles naquela empresa por mais de vinte anos, até sair para a iniciativa privada em 1997. Além da alegria do reencontro, revê-los me faz recordar diversas passagens marcantes, viajando no tempo como ao contemplar os selos.
A empresa das minhas memórias me sugere outra imagem, embora muitos dos personagens fossem os mesmos. Tenho as melhores lembranças dos tempos de ápice dos Correios, então eleita a melhor empresa nacional, num mundo diferente do atual no que se refere às comunicações. Embora as mudanças tecnológicas já começassem a se delinear, a relevância dos serviços era proeminente e a transformação do DCT em empresa moderna garantiu um salto de qualidade. Sem falsa modéstia, tive o privilégio de participar daquele período histórico junto com muitos ecetistas valorosos, ajudando a escrever algumas das páginas mais brilhantes dessa importante organização.
Não caio na armadilha de citar nomes, evitando a injustiça de omitir registros tão relevantes quanto os lembrados. Prefiro homenagear a todos na figura do anfitrião desse reencontro, meu grande amigo Jarbas. Esse excepcional ser humano, que através dos Correios tive a oportunidade de conhecer, me fez o generoso convite para estar com gente tão querida. A hospitalidade extremada dos donos da casa e o carinho de todos os presentes emolduraram um quadro inesquecível na parede das minhas recordações. As informações trocadas com avidez preservarei vivas num arquivo especial da minha mente. Num pedaço de paraíso encravado na montanha, num ambiente leve e descontraído, a prosa correu solta e as horas não foram razoáveis, nos dando a ilusão de passarem rápido demais. Se a vida se faz de instantes, dias assim deveriam ter eterna duração. Estou certo que tenham sob outra perspectiva.

domingo, 3 de junho de 2012

A fábula do gongolo





Gongolo: Pequeno miriápode que se enrola quando lhe tocam. O mesmo que bicho-de-conta ou piolho-de-cobra.

Era uma vez um gongolo individualista, habitante de uma floresta tropical na qual dividia espaço com outros invertebrados, vertebrados, árvores, flores e plantas em geral. Aliás, essa era das raras divisões feitas pelo gongolo, a exemplo da amargura e dos problemas. À alegria, à felicidade, ao bem-estar não se mostrava disposto a concessões, entendendo se tratarem de porções pessoais e indivisíveis. Assim, se recusava a demonstrar solidariedade, espírito de grupo e de compartilhamento. Preferia desfrutar desses aspectos de forma individual e intransferível. Todos, salvo uma e outra exceção confirmando a regra, discordavam do gongolo. Mudava seu percurso pelas trilhas da mata, mas seu comportamento peculiar permanecia atraindo a crítica dos demais. Entretanto, ele se mantinha irredutível, por considerar correta sua maneira de ver a vida e entender equivocada a visão de todos os outros. Com o passar do tempo o gongolo passou a se sentir cada vez mais isolado, pois os grupos mais diversos promoviam reuniões sem contar com a sua presença. Até só lhe restar o espelho da toca. Arraigado a seus princípios, o gongolo sequer admitia partilhar os melhores momentos de sua existência com o reflexo da própria imagem. Passou a evitar o espelho também. Eis que surge uma época de terrível e inesperada seca na floresta, privando a todos do habitual provimento abastado. Ninguém, inclusive o gongolo, conseguia encontrar o indispensável para a própria subsistência. Em circunstâncias de tamanha escassez, houve imperativa necessidade de juntarem esforços para o recolhimento de víveres. Consolidadas as porções obtidas por cada um, uns mais outros menos diante das dificuldades, o resultado era repartido de acordo com a demanda individual. A partilha das cotas reunidas com sacrifício geral se dava inobstante as preferências particulares da borboleta, da aranha, do gafanhoto, da centopéia, da libélula, enfim, de todos. O obtido pelo grupo era indistintamente distribuído até que cada indivíduo dispusesse da mesma porção minimamente satisfatória. Somente tal compartilhamento poderia salvar o ecossistema. Não dispondo de alternativa para a sobrevivência, em razão dos dias de abundância serem sucedidos por jornadas de carestia, o gongolo precisou rever seu ponto de vista. Forçado pela contingência mudou a filosofia de vida e passou a se comportar de forma partícipe e solidária. Mesmo após normalizada a situação, superado o período de privação, o gongolo se manteve integrado aos princípios de coletividade. Desde então jamais deixou de ser lembrado em todas as reuniões da floresta. Nelas se tornou uma das mais simpáticas e bem-vindas presenças, pelo extremado espírito de grupo, pelo companheirismo e pelo temperamento afável.  E se diz que naquela floresta todos viveram felizes para sempre.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Velho desafio



Ouço o som do novo dia. Carros, passos, portas, pássaros, louças, até um galo distante ecoa em meus ouvidos. Eis o velho desafio de novo. Abro os olhos e a luz do dia anuncia o reinício de tudo. A força para recomeçar tem nome de compromissos maiores. O privilégio de continuar a viver cobra um preço pela responsabilidade. Não há tempo para lamentos nem razão para esmorecer, há motivos mais nobres exigindo participação completa. Os astros continuam a girar e o universo a exercer a influência sobre nós. A vida torce e distorce sem nos dar o direito de fraquejar. O estímulo vem de cada preciosa rotina, do respirar com normalidade, do enxergar o entorno, do sentir o aroma das flores, do ouvir o canto dos passarinhos. A felicidade reside nos pequenos detalhes, no repetir de funções já consideradas automáticas. Desfrutar da alegria de abrir os olhos e ver o mundo por si só premia o esforço de perseverar na caminhada. Nenhum obstáculo pode oferecer maior resistência do que a possibilidade de perder a chance de usufruir das coisas de simples aparência à nossa volta. O mistério da existência refuga o desânimo, buscando em novas portas abertas as alternativas de eventuais janelas fechadas. Manter a chama acesa nos reanima frente às dificuldades, cria disposição para driblar as adversidades. Viver sempre será melhor, afinal, alguém conhece algo mais atrativo? Sob qualquer argumento ou restrição, a resposta nos impõe contornar as eventualidades e manter o passo. Embora semelhantes, os dias diferem uns dos outros, bastando aguçar a percepção. A roupagem usada na apresentação das situações altera o quadro, modificando o sentido das ações e a lógica dos acontecimentos. Mudar um percurso pode transformar os momentos, perceber uma forma nova de resolver uma pendência, também. Os artifícios nos oferecem total liberdade, apenas não aceitam a desistência. Ao fim de mais uma jornada estaremos exaustos, mas satisfeitos. Dormiremos cônscios do dever cumprido, descansaremos ansiosos pelos sonhos indicando mais do que a presença do desconhecido. Descobriremos mensagens do subconsciente, concluiremos pela integral sobrevivência mesmo em estado de repouso. Mergulhados numa viagem no intervalo do irreal, navegamos sem bússola, guiados pelo GPS do caminho virtual, onde os fatos, pessoas e lugares espelham desejos e projeções da realidade. A vida, portanto, se mostra plena e rica em todos os sentidos. Nesse exato momento tenho um fraterno amigo do outro lado do mundo, solitário mesmo cercado por quase um bilhão e meio de chineses. Dedico a ele esse texto, buscando amenizar seu forçado isolamento em mais um dia especial. Não importa onde estejamos ou quem sejamos, Mermão. A vida, só nos resta desfrutá-la da maneira mais prazerosa possível. Com a devida licença dos problemas, vamos viver.    

domingo, 20 de maio de 2012

Reflexão


Quais foram ou serão os padrões,
sem dúvidas ou meras questões,
certezas sem credo ou razão,
sentenças sem medo ou perdão?
Ditames da mente, não raro,
deram ou darão todo amparo
a conceitos de auto-ajuda,
quem quiser que se iluda.
Momentos de insanidade,
lampejos de equilíbrio vão,
ao se trocar sinceridade
pelos repentes da emoção.
Flui a verdade nos fatos,
transpira na pele o calor,
batalhas de gatos e ratos,
guerras de uterino furor. 
Teimosia de uma vida cruel,
dias de boas comidas caseiras,
noites de fartas doses de fel,
todas em partes, partes inteiras.
Vivo hoje qual no fim estivesse,
chegará a hora superior à prece,
separando essência e matéria,
resultando uma luz etérea.

sábado, 12 de maio de 2012

Mãe


Ser excêntrico e sem definição,
prenhe de lógica e de precisão.
Mais conteúdo, menos matéria,
pouco terrena, muito etérea.
Ternura e carinho por osmose,
calor e amparo em simbiose.
Viaja anos-luz num breve momento,
vê outros planos e um novo tempo.
Produz puro amor, profundo Mãestério,
difunde o saber, real Mãegistério.
Mãe, mother, mère, madre, mamma,
estórias à noite na beira da cama.
Embalo do sono em quatro estações,
alívio nas dores de mil contusões.
Curativo do corpo, lenitivo da alma,
conselho tranquilo, dose de calma.     
Natural, adotiva, anseio do leite.
água e vinho, às vezes azeite.
Senda indicada, sentido de viver,
matando a fome, saciando o beber.
Equilíbrio, refúgio, porto seguro,
brilho do sol no céu mais escuro.
Resgata a essência e o sopro vital,
protege as crias das forças do mal.
Guerreira incansável, final guardiã.
redoma eterna da existência vilã.

sábado, 5 de maio de 2012

Um novo caleidoscópio

Lembrava esses dias do caleidoscópio, objeto perdido nas memórias da minha infância. Interessante a atração por aquela visão embaralhada de cores e formatos, modificada pelo simples girar do eixo principal. Não havia qualquer outro aditivo além da mecânica do movimento e da imaginação fértil do observador. Muitos momentos de total abstração nas imagens multiplicadas pela mutação de figuras dinâmicas. Ocupei boa parte da minha vida viajando naqueles replicantes fragmentos de vidro, tantas fossem as angulações e os reflexos de espelho. Inspirado nesse invento do século XVII, hoje reinvento as cores da minha existência através do giro diário do corpo celeste onde resisto fragmentado. Enquanto a galáxia se movimenta, as noites se estampam numa tela salpicada por minúsculos pontos cujo lume vem de um tempo remoto só agora enxergado. Vagando no silêncio acordamos de sonhos interrompidos ou vivemos pesadelos perpetuados pelo mergulho na escuridão das incertezas. O percurso termina quando cintila a claridade espelhada nas janelas marejadas da alma, impondo a conclusão de mais um ciclo e retomando a aflição do recomeço. Olhar no caleidoscópio do destino gerou um contraponto ao lúdico passatempo de menino. Numa estranha e assustadora morfologia, as figuras do cotidiano impactam as expectativas e desestimulam a tentativa de nova combinação das peças. O refúgio de criança se transformou num desafio perigoso onde tanto a geometria quanto os matizes aprofundam as dúvidas e ameaçam a razão. Distorcido o significado da diversão, as combinações já não ornamentam pelos efeitos visuais, mas confrontam a estética dos sentidos. A simetria dos arranjos repete as sombras de erros capitais e as sobras de imperfeição. A visão caleidoscópica atual mostra homens se apequenando em recorrentes quadros dantescos, distantes do aprimoramento como estive da verdade em minhas projeções infantis. O estímulo da busca por novos padrões se extinguiu, nem há mais felicidade na composição de novas perspectivas. As cores mascaram, os brilhos ofuscam, os traços amedrontam. Novo e velho se confundem na impossibilidade da mudança, espreitando apenas pela oportunidade de ocupar o espaço cobiçado. Os desenhos agora possuem vontade própria, se apresentam num balé hipnótico, agrilhoam mentes e olhos desavisados. Ao se libertarem dos limites do brinquedo, se apossaram dos desígnios de quem observava sem compromisso. Trocaram de posição e nos veem através de um enorme caleidoscópio. Brincam de manipular a humanidade, interferem em nossos caminhos, iludem com a alternância das peças, de acordo com o posicionamento dos astros, conforme a incidência da luz. Justa resignação de meras partículas de vida, nós, de criadores a criaturas.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dor maior de idade



1º de maio de 1994, outro domingo de manhãs alegres. Fazia sol e a rotina das corridas de Fórmula 1 abria a jornada esportiva daquele dia. O Brasil se orgulhava de ter um ídolo mundial entre os pilotos da categoria e acompanhar as provas era quase obrigação de quem gostava do esporte. Aquela etapa de Ímola foi palco de acidentes graves, inclusive com morte, durante os treinamentos. Pairava uma atmosfera sombria no ar, uma sensação de outros problemas na pista. Mas ninguém, muito menos eu, esperava uma tragédia envolvendo o nosso Ayrton Senna da Silva. Em frente à TV eu observei a saída reta do Williams da curva de Tamburello e a pancada nem tão expressiva. As cenas seguintes mudaram a minha expectativa. O tombamento estranho da cabeça do Senna e a inércia a seguir pareceram durar uma eternidade. A interrupção da prova, o socorro e o drama posterior consumiram cada segundo dos admiradores daquele vingador nacional. Ele representava o sucesso brasileiro, ainda que em parceria com máquinas estrangeiras. Aquelas intrincadas simbioses de parafernália mecânica e computadores só alcançavam a perfeição sob a maestria de um gênio nascido em terra brasilis. Essa honra carregávamos no peito, dirigindo junto com o Ayrton em cada ultrapassagem, derrapando e acelerando no limite. Vendo o herói nacional inerte em seu cockpit, apertou o nó na garganta. A alma lavada em vitórias inesquecíveis turvou de repente, enlutada pela trapaça da sorte. Mesmo sem a confirmação eu senti a certeza do desfecho infeliz. Levantei da poltrona, andei até a varanda e, distante centenas de metros, lá estava um vizinho desolado em outra varanda. A cumplicidade do sofrimento brasileiro se pronunciou numa rápida troca de olhares. Abaixamos a cabeça num movimento quase simultâneo, simbolizando dor e respeito. Fui para o Maracanã com o peso do destino em meus ombros. No trajeto a notícia se confirmou após um tempo de esperança cruel e dos estertores da ansiedade. Pela primeira vez um Maracanã lotado por duas torcidas rivais cantou a uníssona homenagem ao mesmo ídolo. A tristeza embargou a voz e encharcou os olhos. Sucederam-se dias de baixo astral e lamentação. O sentimento de perda se assemelhava a um ente querido, afinal o recebíamos em casa domingo sim domingo não. Enfim, já se foram dezoito anos desde aquele trágico dia. A dor completou maioridade sem seguir em frente. De lá para cá jamais assisti outra competição de Fórmula 1. Desde então cumpro esse permanente ato de silêncio. Valeu, Senna.