sábado, 5 de janeiro de 2013

Deixa a vida nos levar






Os rostos se repetem em 2013. Não houve sequer a criatividade de mudar muito as cenas ou as locações. O ano começa tal o passado e, bem provável, qual o próximo. As vítimas, por serem muitas, não há certeza ao registrar. Seus rostos, muito menos. Os rostos mais conhecidos, os de sempre. Em meio ao sofrimento de tantos, sobrevoam o cenário da catástrofe, prometem mundos e fundos. Os fundos escoam pelos ralos tradicionais. Os mundos dos desassistidos seguem o curso do ralo do destino. Se tem notícia dos fundos quando viram butim mal dividido, quando desavenças costumam revelar as nojeiras ocultas por artimanhas sofisticadas, propinodutos e quetais. Impressiona a alquimia transmutando um patrimônio modesto no início da carreira política em riqueza absurda após alguns anos de mandato.  
Molhados pela chuva esperada e pelas lágrimas dos infelizes, os eleitos teatralizam. Em sua atuação preferida, escolhem a expressão mais contrita, as palavras mais adequadas e buscam transformar a tragédia anunciada em bônus político, por incrível que isso possa parecer. Se o lixo da desgraça foi acumulado pelo antecessor, a culpa recai sobre quem saiu. Caso contrário, escolhe-se outro bode expiatório, vários bodes, mamutes, pterodátilos, enfim, a história é tão antiga que os animais já foram extintos. A desfaçatez não se extingue, está aí até hoje.
As manadas de gente viram estatísticas, ano após ano. 2013 significa apenas um número, tão somente mais um registro, numa repetição repulsiva de incompetência, desmandos, improbidades, descalabros, escândalos, corrupções, desgovernos. E muitas mortes de inocentes. Arrastados pelas encostas, pelas águas, pelas árvores, pelas balas perdidas ou achadas, pelas epidemias ou pelas doenças comuns, pelos hospitais sem plantonistas, pelo atendimento precário em qualquer lugar, pela covardia, pelo descompromisso, pela desesperança.
Mas nenhum dos óbitos soa importante. Sem ressonância, mínima repercussão. O tempo se incumbe de relegá-los ao esquecimento até o ciclo se renovar e procurar os alvos da vez. Nomes famosos só nas manchetes, nas declarações inócuas, nas desculpas esfarrapadas. Sobrenomes de peso constam nas listas apenas quando o acaso se equivoca. Raríssimo encontrá-los como vítimas nas páginas abomináveis das ocorrências policiais, das enchentes, dos desmoronamentos. Os acidentes da natureza e a insegurança nossa de cada dia possuem um padrão peculiar de opção.
Enquanto isso, vida que segue. O povo, os incautos, os martirizados, esses acordam a cada dia, giram o tambor e apertam o gatilho, numa roleta mais carioca do que russa. O resto fica por conta do Grande Arquiteto do Universo. O problema é que Ele anda bastante ocupado com as mazelas desse orbe conflituoso, desigual e injusto. Um dia Ele se cansa e os Maias de plantão acertam uma previsão. Até lá, um solidário de origem pobre e de coração nobre vai ajudando a deixar a vida nos levar. Canta aí, Zeca.
 




sábado, 29 de dezembro de 2012

Feliz 2013 !




Que o mundo não acabou todo mundo já sabe, até os Maias originais, onde quer que estejam agora. Fica a dúvida se as altas temperaturas abaixo da linha do Equador representam algum indício atrasado. Talvez estejamos vivendo o papel do sapo na água em fervura, cozidos aos poucos para não repararmos e pularmos antes. Nessa curiosa situação, digamos assim, também não há alternativa. Pular para onde? Então só nos resta a adaptação ao calor e contar com a sorte do maçarico esfriar um pouco, permitindo uma sobrevida. Pelo menos para conferir as dezenas da Mega da Virada. Quem sabe o prêmio não garanta uma reserva num próximo voo da NASA para Marte? Além do robô Curiosity parecer uma boa companhia, a atmosfera menos espessa de lá propicia temperaturas de no máximo 20° C. Em compensação, podemos encarar até -80°C e o ano dura mais onze meses que o nosso. Os famosos ônus e bônus.
Bem, enquanto isso, vida que segue por essas plagas terrenas. Com a imprudência dos incautos, convivemos com a corrupção, os escândalos, os desmandos, as balas perdidas, a irresponsabilidade, as mortes absurdas, os apagões, enfim, com o preço de viver nessas paragens. Quem se habilita e reúne condições se muda para outro canto, onde o céu não é tão azul, onde as montanhas não convivem com o mar e onde as pessoas não estampam o sorriso nos lábios inobstante as circunstâncias nem sempre agradáveis. A opção embute o benefício da dúvida, as decisões implicam numa troca permanente. O sabor do melhor viver traz no seu bojo o apuro do paladar, a ponderação correta dos temperos, o equilíbrio na balança dos ganhos e perdas. As concessões fazem parte do processo, afinal, a perfeição não existe.
Por essas e por outras, nada de exageros no ano que se avizinha. Como apregoa a sabedoria das avós, parece mais razoável comer pelas beiradas o mingau quente, sobretudo nesses tempos cáusticos. Não devemos esperar nada, mas procurar fazer as mudanças desejadas. Elas começam conosco. Num coro ecoado do canto antigo do Vandré, vem, vamos embora, que esperar não é saber. Ou então, dance conforme a música. Se os ditames do destino fogem de nosso pleno controle, nos cabe entrar com a devida colaboração e evitar as teorias da conspiração. Vamos cuidar da saúde para estendê-la ao máximo possível, quem sabe resgatar a receita do Niemeyer e da Dona Canô. Nunca é tarde para começar, pois as vantagens serão proporcionais ao tempo de aplicação.
De resto, meus caros, é desejar um 2013 melhor do que 2012(vade retro) e pior do que 2014. Fazer por onde, desfrutar das benesses da vida, aproveitar o convívio agradável, amar muito a qualquer preço, acreditar em nosso poder de transformação e viver intensamente. A propósito, ao contrário do que defendia a imperdível série Arquivo X nos anos 90, compartilho com vocês uma frase atribuída a Buda e lida outro dia: “A verdade não está lá fora, a verdade está dentro de nós”. Portanto, troquemos a esperança pela mudança. Chegou a hora de um salto de qualidade. Vamos saltar juntos.
Feliz 2013!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Feliz Natal e Melhor Ano Novo





Em meio aos últimos suspiros de um péssimo ano, tudo aponta para a minha sobrevivência. Mesmo depois do emblemático 21/12 do calendário Maia. Contudo, restarão marcas. Se os anteriores da safra 2000 foram penosos, 2012 se superou. Enquanto após doze meses um ano comum se finda, alguns se perpetuam por eventos intermináveis, positivos ou negativos. Esse ano se esvai como todos os anteriores e os que virão, mas deixará em minha memória um rastro doloroso de sua passagem.
Seja como for, num período de festas as tensões tendem a se dissipar e as palavras soam mais doces. As pessoas aparentam uma solidariedade maior, ensaiam um sentimento mais ameno, parecem se recordar da humanidade como um preceito básico. O amor ao próximo ressurge de repente, as atitudes se revestem de fraternidade e os espíritos se desarmam.
O comércio insufla um compromisso com a gratidão travestida de mercadoria. Engalanados pelo melhor papel capaz de embrulhar caixas, corações e mentes, lacrimejamos por consumismo. Chora de alegria quem recebe os mimos e de emoção quem presenteia. Num piscar de olhos, a generosidade vira a tristeza de quem se endivida pelos meses subsequentes.
Pouco importa, a festa esquece seu motivo principal e se alimenta de um cardápio variado e proibitivo ao órgão mais sensível do corpo humano, o bolso. Esse estará vazio, ao contrário das entupidas coronárias e do estômago dilatado. A comemoração cristã se relega a um plano secundário, exceto pela reunião da família. E nessa hora as ausências se fazem sentidas com especial intensidade. Além do amigo oculto, outros protagonistas estarão desaparecidos. As lembranças inevitáveis amargam o gosto das rabanadas e das frutas cristalizadas, o bacalhau salga a alma e o vinho exige goles exagerados. Portanto, cultivem o hábito de degustar o amor como um néctar dos deuses, celebrando ao máximo as presenças queridas.
Embriagados pela simbologia da época, sequer nos damos conta da certeza da ressaca espiritual. O calendário frio e calculista nos impõe novos tempos, felizes ou não. Cabe reservar para eles um sopro enorme de esperança, uma dose imensa de saúde e um farto quinhão de paz. Protegidos por essa alta cúpula da perfeição, poderemos enfrentar as surpresas de outros dias, tão esperados e nem sempre melhores.
Aos que me privilegiam com a leitura dos meus textos, familiares, amigos, colegas, desconhecidos virtuais ou esporádicos visitantes, desejo um Natal de muita harmonia e plena reflexão. Que a data magna da cristandade inspire a chegada do novo ano, propiciando mais flores do que espinhos, mais sorrisos do que lágrimas. Essas, se teimarem em rolar em nossas faces, que anunciem felicidade.
E, principalmente, abracem e beijem muito aqueles que amam. Não só para reenergizar e registrar a nobreza do sentimento. Mais relevante não esquecer de que, se isso terminará em dia, mês e ano desconhecidos, sem dúvida terá um fim.


Feliz Natal e Melhor Ano Novo.