domingo, 16 de dezembro de 2012

Eu vou botar teu nome na macumba!





É inacreditável o descaso das prestadoras de serviço com os clientes. Não há uma cultura de preservação da marca, de cuidado com a fidelização dos usuários, de dedicar ao pós-venda a mesma atenção da conquista do comprador. O mais incompreensível ainda fica por conta da reação às reclamações. Depois de peregrinar sem êxito por diversos canais da empresa, basta procurar por ajuda em colunas de defesa do consumidor ou em agências reguladoras do governo e o assunto se resolve como num passe de mágica. Por que?
Já passei por uma série de problemas com prestadoras de serviço, mas o mais recente foi inominável. Em setembro recebi um SMS da operadora Oi, com quem tenho um plano Conta Total 3 há mais de dez anos. O torpedo me informava que o meu plano fora cancelado e substituído por um plano básico. O problema é que isso ocorreu à minha revelia, ou seja, sem que eu solicitasse e com as faturas rigorosamente em dia.
A Oi apenas se superou, cometendo mais uma de suas falhas habituais. Daí em diante foi um aborrecimento enorme. Minha linha residencial desativada, minha internet também, os três celulares tarifados como tarifa básica. Por quatro dias fiz inúmeras ligações para a operadora. Num dos contatos cheguei a falar com dezessete pessoas diferentes, sem conseguir resolver coisa alguma. Afinal reconhecido o erro e restabelecido o plano, o passo seguinte foi convencer a Oi de que eu não devia arcar com as despesas decorrentes de sua falha. Isso incluía a reinstalação da linha residencial, as diferenças tarifárias do plano Oi Conta Total para o básico, etc.
Por dois meses, ainda que mantendo contato frequente com a prestadora do serviço, não tive como resolver o problema. Pior, ainda convivi com cobranças por telefone e por escrito, ameaças de cancelamento do serviço e outros absurdos. Tentei de todas as formas falar com a ouvidoria da Oi e não consegui. Cansado de tudo isso, resolvi escrever para a coluna Código de Defesa do Consumidor do jornal O Globo. Pronto, numa incrível coincidência, no dia seguinte recebi uma ligação da ouvidoria da Oi, comunicando a solução da pendência. Mais ainda, o representante da Oi se disse surpreso do assunto não ter sido resolvido antes, tal a simplicidade da definição. Será que temos que começar as reclamações pelo final? Ou ameaçando antes de qualquer coisa? Poderíamos iniciar assim: Eu vou botar teu nome na macumba! Com sinceridade, nem sei o que foi pior, a gravíssima falha cometida pela operadora no cancelamento indevido ou o tratamento dado depois a um consumidor coberto de razão. No mesmo período, meu filho viveu uma situação semelhante com a Samsung, referente à compra de um monitor com defeito, só solucionada após a divulgação do caso numa rede social. Mudar não adianta, são todas iguais. Alguém teria uma explicação para tamanha desfaçatez e insensibilidade?


domingo, 9 de dezembro de 2012

Nem sempre é o que parece





Nem sempre é o que parece, eis o que as encruzilhadas da existência deveriam estampar em suas placas de sinalização. Ao caminharmos nessa vida, com a data de fabricação identificada e o prazo de validade desconhecido, deveríamos ter acesso a indicações melhor definidas. Ao contrário, somos obrigados a escolhas cruciais sem a menor certeza de opção pelo rumo certo. Seguimos direções apenas sugeridas, desconhecendo a exatidão do destino.
Muitas vezes andamos às cegas, tão poucas as referências existentes. Em outras nos obrigamos a enveredar por caminhos inexplorados, por imposições maiores do que a nossa vontade. Quando nos falta o combustível para viver, precisamos buscar alternativas inexatas somente porque podem encurtar a distância e nos permitir seguir a viagem. Desviar nosso trajeto, abrir mão das paisagens agradáveis, dos personagens conhecidos, das paradas preferidas e obrigatórias, das certezas que nos acostumamos. Isso pode nos impor uma experiência solitária, tendo somente a companhia da música, dos sons incidentais, de encontros fortuitos.
Tudo se renova, muito surpreende, pouco ameniza. Desbravamos novas trilhas, enfrentamos obstáculos, custamos a encontrar soluções. Olhamos ao redor e estranhamos rostos, locais e ambientes. Procuramos um olhar suavizado pelo reencontro e nos deparamos com a desconfiança da novidade, com a insegurança do ineditismo. Mas nos resta prosseguir, pois a vida segue inexorável. As demandas nos exigem com a fria habitualidade, austera e implacável como o carrasco em sua função.
Não interessa o momento, a fragilidade da alma, a convalescença da mente. Caminhar é preciso, a qualquer custo, sob qualquer sacrifício, no bom ou no mau tempo. Não se sabe onde leva o caminho, o porquê de mudar. Acatamos as razões verdadeiras de deixarmos para trás o que mais queremos, respeitando os anseios e as pretensões.
Possuímos uma autonomia parcial sobre nós mesmos, não nos pertencemos, fazemos parte de uma engrenagem maior. E essa continua voraz, insaciável. Ainda que independa de nós, ela se alimenta de nossas forças, de nossos talentos, de nossas presenças. Pode nos descartar, vai fazê-lo, mas não abre mão de desfrutar de nossos estertores. Passado trocado pelo presente, seguiremos nos supondo felizes, imaginando ludibriar quem escolhe por nós.
Se assim for, teremos perdido pouco. Ganhar, jamais. No final, vence a banca.  
Nem sempre é o que parece.



sábado, 1 de dezembro de 2012

Antiga Catedral, 1º/12/78





Tudo tem a primeira vez
no palco desse teatro.
Os hoje trinta e quatro
pararam nos trinta e três.
Seria enorme insensatez
justo hoje sentir tristeza.
Melhor lembrar da beleza,
do sorriso, da altivez.
Assim esqueço a viuvez,
revivendo cada momento,
tanto amor, tanto alento
e tanta paixão sem talvez.
Pouco importa porquês,
valem mais as lembranças,
na presença das crianças
lhe vejo com nitidez.
Deixo a desfaçatez
do choro sem finalidade,
vou acalentar a saudade
com extrema placidez.
Não direi trinta e três
no exame da minha alma.
Por favor, tenha calma.
Tudo tem a primeira vez.