quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma pérola aos porcos




Pérolas aos porcos, rotina cruel,
por não distinguirem doce de fel.
A vida perdoa o inaceitável,
surpreende, aceita o imperdoável.
Incríveis, nefastas, absurdas razões,
conflitos da alma a partir corações,
que se curam, regeneram e revivem,
recomeçam desde a própria origem.   
E, inspirados num amor mais forte,
resgatando vida, paixão e sorte,
recuperam o rumo da felicidade,
vivem com muito mais intensidade.
Mais sábias as chances do destino,
no buscar detalhes em pente fino
sempre acham a solução perfeita,
mesmo jogando fora a receita.
Ano após ano, em vinte de março,
pensando nisso é que me refaço.
Beijo a pérola e sorrio dos porcos,
seres estranhos, nebulosos e tortos.
Num belo dia não serei mais concha,
restarei no fundo da areia troncha.
Na solidão feliz do dever cumprido
não verei jamais seu coração partido. 

Feliz aniversário, minha filha.
Eu te amo.




domingo, 17 de março de 2013

Boas novas




Seus sinais me surgem claros, não sou tolo.
Boas novas, mais justas, por assim dizer,
mostram sua força, seu cuidado, sua luz.
Atenuam a saudade, um consolo,
confortam a alma, mais ajudam a entender
as razões de sua falta, do amor que conduz.
As surpresas em assuntos pendentes,
a simplicidade das soluções desejadas,
trazem a sutileza de sua presença.
O ceticismo dos mais descrentes,
supondo providências inesperadas,
sufoca anseios de nascença.
Não me sinto tão sozinho,
apoiado em seu amparo,
protegido por sua ação.
Seguirei o meu caminho,
o infortúnio é mais raro
tendo a sua proteção.


sábado, 9 de março de 2013

Inacreditável




Cada vez mais inacreditável a inoperância dos serviços públicos no Brasil, com raras exceções que só confirmam a regra. Sei que todo mundo sabe disso, mas quando ocorre conosco nos assustamos. Vira e mexe tropeçamos em causos absurdos, acreditando apenas porque passamos pela situação e não duvidamos de nós mesmos. Trabalhando em Belo Horizonte sem perder as raízes cariocas, vou para as Alterosas às segundas-feiras cedo e retorno às sextas-feiras à noite. O preço da passagem aérea decresce à medida que antecipamos a compra. Os bilhetes providenciados mais próximo da data do voo acabam ficando muito caros. Em razão de uma reprogramação na semana passada, precisei repensar a despesa. Viajaria duas vezes num intervalo de três dias. Foi quando me ocorreu a ideia de usar um ônibus leito, executivo, especial, cujo preço se assemelha à passagem aérea mais barata, comprada com bastante antecedência.
Realmente, os ônibus em questão são novíssimos, estão rodando há três meses. O conforto justifica o preço e quem não tem problema para dormir consegue relaxar a noite inteira. Nesse caso, a saída de BH às 23:30 e a chegada ao RJ às 6:00 trocariam uma noite de descanso comum pela viagem. Meu compromisso seria à tarde, portanto havia margem de segurança significativa. Cheguei à rodoviária de BH, fiz uma refeição leve e embarquei tranquilo. Partimos no horário e andamos alguns minutos até a saída da cidade. Ao entrarmos na BR 040, o ônibus parou. A princípio não entendi a razão e em breve pude observar que no sentido inverso também não passava veículo algum. Os minutos foram se estendendo de forma preocupante. Logo as pessoas acordadas começaram a se agitar. O motorista fez e recebeu algumas ligações no celular. Consegui escutá-lo reclamando de não ter sido avisado que o ônibus das 16:00 estava parado nesse congestionamento. Tratava-se de um acidente por volta das 17:00 com uma carreta de combustível, interditando os dois sentidos da BR 040, uma rodovia federal com grande fluxo. Aguardaríamos por uma nova carreta e pelo apoio dos bombeiros. Daí em diante a agonia aumentou em doses homeopáticas, qual uma tortura chinesa.
Os dramas dos passageiros afloravam. A passageira na poltrona atrás da minha perdeu a homologação no Rio, alem do dia de trabalho em BH e da passagem aérea de volta. Chegaria ao Rio e de imediato se encaminhara para o aeroporto para voltar. Não foi possível conciliar o sono sem saber como se resolveria o problema. Nenhuma informação, ônibus desligado, ar condicionado sem funcionar, uma hora, duas, três, quatro, cinco. Após cinco horas e vinte minutos os veículos em sentido contrário apareceram. Em seguida nos mexemos e seguimos viagem. Encaramos um imenso congestionamento a partir de Duque de Caxias e chegamos à rodoviária carioca quase 12:00.
Por que a transportadora não avisou aos passageiros sobre a extensão do problema antes de sair da rodoviária de BH? Isso viabilizaria alternativas como viajar de avião de manhã cedo, reagendar os compromissos possíveis, evitar aborrecimentos maiores. O motorista, cujas atividades anteriores desconheço, passou mais de doze horas sob tensão, num desgaste bastante perigoso para a responsabilidade da função que exerce. Como acreditar que uma intervenção numa rodovia federal, por mais complexa se possa imaginar, demande tanto tempo? Como considerar a hipótese de múltiplos interesses, pessoais ou empresariais, imobilizados, atrasados, prejudicados ou perdidos de todo? Caso o acidente colocasse em risco a vida das pessoas mais próximas ou o entorno num raio maior, o que seria delas? Ou estou conjecturando sem conhecimento de causa e a ação empreendida foi rápida e eficaz?

domingo, 3 de março de 2013

Um por todos, todos por um


Há dias inesquecíveis na vida de todos nós, para o bem ou para o mal. Há aqueles muito especiais, que conseguem apagar quase todos os outros da memória, como se ocupassem o nosso HD por completo. Na última quarta-feira, as imagens e os sons de uma hora e meia, numa enorme coincidência futebolística, se transformaram em arquivos pesadíssimos ao se estenderem para a eternidade. Velhos viraram meninos, lacrimejaram e tiveram dificuldade para falar. Jovens envelheceram décadas em minutos, tantas as emoções afloradas no resgate das histórias que lhes foram contadas. Na presença do maior de todos os ídolos, o contato com um imortal mexeu com os mortais de todas as idades. No caso da Academia Rubro-Negra da Felicidade, Zico é o imortal capaz dessa Magia.
Por ironia do destino, somente por isso, há um clone perfeito do Zico. Ele se chama Arthur Antunes Coimbra e conta cada ano de sua existência da mesma forma que nós. Ao fazê-lo, atrai toda a Imensa Nação Rubro-Negra para os festejos. Os mortais costumam comemorar de maneira mais efusiva as datas ditas redondas, as décadas completas. Assim está fazendo o Arthur, à revelia do Zico.
No dia em que estive com o Magia para homenagear o Zico, refleti sobre a oportunidade rara de estar frente a frente com o meu ídolo. Eu já estivera com ele em outras ocasiões, mas quantos tiveram essa chance em toda a vida? Sabendo da extrema importância do Zico para a história do Flamengo, valorizei ainda mais aqueles instantes preciosos oferecidos pelo destino. Sendo um entre quarenta milhões, me senti na obrigação de dividi-los com outros rubro-negros. Como os personagens da geral da minha juventude no Maracanã, os geraldinos. Naqueles tempos de intensa glória, lembro do Jardel, um gigante de ébano que urrava o jogo inteiro, dando instruções ao time ou xingando adversários. Escutava-se a voz dele nas arquibancadas; outra figura inesquecível era o sujeito que andava num patinete preto e vermelho pela geral o jogo inteiro; outro era o famoso dono do javali rubro-negro, passeando com o animal na geral como se fosse um troféu ou um talismã. Por impossível fazê-lo com todos, resolvi compartilhar a minha satisfação com pessoas que amam o Flamengo e com quem convivi ao longo da vida.
De imediato me vieram à cabeça algumas figuras importantes na minha parentada rubro-negra. Tio José Benedicto, 87 anos vestindo o Manto Sagrado, ouvinte do Ary Barroso e incentivador de minhas locuções de jogos fictícios. Outro é o tio Guilherme, único dos irmãos da minha mãe que torcia pelo Flamengo, responsável pelo amadurecimento de minha preferência nos anos sessenta. Mais tarde vimos juntos a subida do time inteiro de juvenis com o Joubert em 1974, o início da arrancada em 1978 e a sucessão de conquistas posteriores. O velho Guila não está mais entre nós, mas foi um grande companheiro de Maracanã. Senti sua presença no CFZ. Não com a mesma frequência aos jogos, por comedimento, tio Rubens também merece referência. Ele, Guila e meu amigo Renato se abraçaram no paraíso vermelho e preto, enquanto eu abraçava o Zico.
À galera da pilastra 40 do Maracanã faço menção específica e honrosa. Vibramos muito com o Galo, no Mário Filho ou não. Viajamos juntos para jogos decisivos em outros estados, pegando o ônibus da Cometa na garagem da Maxwell. No ônibus às vezes encontrávamos o Moraes. Morávamos na Tijuca, íamos a pé para o estádio, não antes da parada obrigatória no bar do Antônio, um sofrido freguês de caderno. Éramos quase uma pequena organizada. Homenageando o Zico na quarta passada, percebi ao meu lado os saudosos Edu e Jones, além do Fernando, Quarenta, Robson, Teixeira, Paulinho Barramares, Cacá, Jorginho, João Paulo, Tupamaro, Luiz Cláudio, Vingador Mascarado, Roberto Careca, que torcia pelo América e ia aos jogos conosco, Emir e Zé Pestana, esses dois últimos felizes aniversariantes neste mesmo consagrado dia 03/03. Ainda tinha um agregado tricolor, meu tio Carlos, amante do bom futebol que ia conosco pelo prazer de ver aquele timaço do Galinho. Com eles chorei inúmeras vezes de alegria, raras de tristeza, emocionados pela orquestra de craques sob a batuta do gênio. De forma sensitiva, todos cumprimentaram o ídolo comigo no CFZ.
O abraço apertado no Zico eu dei por todos, mas em especial por cinco pessoas. Meu pai, o saudoso Dario, que embora tricolor doente me fez torcer pelo Flamengo quando me levou ao Fla x Flu decisivo de 1963. Apaixonado pelo futebol, ele teria admirado o Zico se o tivesse visto jogar. Morreu cedo, no início de 1972, e não conseguiu; D. Lourdes, minha octogenária mãe rubro-negra, que dia desses me pediu uma camisa dos 60 anos do Zico, por ser fã incondicional dele; meus dois filhos, Natália e Gustavo, rubro-negros que não o viram jogando mas são fãs do Galinho. A mais velha nasceu no ano da graça de 1981, a tempo de ganhar em vinte e um dias o Carioca, a Libertadores e o Mundial. O caçula vibrou comigo no famoso gol do Pet e me deu o prazer de comemorarmos juntos o Brasileiro de 2009, num momento dificílimo de nossas vidas; e, muito especialmente, a minha saudosa Márcia, quem sempre dividiu comigo o nirvana das freqüentes vitórias e a amargura das poucas derrotas. Ela compreendia como ninguém o meu estado de espírito rubro-negro. Por sorte, tivemos o Zico para fazer a balança pender de forma absurda para o nosso lado.
Com eles e mais outros tantos não citados, além das dezenas de milhões de desconhecidos, divido a veneração ao mesmo ídolo. A carga emocional de tanta gente me faz virar criança cada vez que encontro o Galinho. Somos súditos leais, Zico. Sabemos que os seus simbólicos sessenta anos disfarçam a longevidade dos deuses. Obrigado por tudo. Vida longa ao Rei!


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A vez da Naná




20/02/2013, ao invés de apenas mais um dia no calendário, será uma lembrança triste. Pensei estar refugiado em Belo Horizonte e você me impõe o peso de suas sombras. Impossível me acostumar com isso, mesmo que se acerque de mim desde o meu nascimento. Além da sua traiçoeira contemplação, seus botes ao meu redor sempre foram muito sentidos, inesperados ou não.
A avó Lucinda sucumbiu às suas artimanhas num Dia das Mães, no meu registro mais antigo de sua presença, há quase cinco décadas. Depois foram os passarinhos, quase todos de uma vez, a começar do Brasinha e seu canto maravilhoso. Lembra? Era um canário gloster, aquela raça com franja.
À medida que o tempo passou, sua ronda aumentou a frequência de forma exponencial. Meu pai, os outros avós, tios, amigos, o Scottie, a Princesa, o Popó. Há três anos a minha sogra. O ano passado começou com o seu assédio bem sucedido ao meu sogro e terminou com a sua insidiosa investida em minha saudosa mulher.
Agora, você se interessou pela doce Naomi, nossa querida Naná, se aproveitando da idade avançada da pequena e meiga scottish terrier. Os acordes de sua flauta encantada de repente se fizeram escutar pela velhinha, repaginando o músico de Hamelin em sua missão sinistra. Nem sei explicar como a nossa companheirinha, com sérias deficiências visuais e auditivas, conseguiu lhe seguir.
Ainda que eu lhe considere inexorável, jamais aceitarei passivo a sua ação. Ao cortar laços tão apertados pela felicidade, sempre me revolverá a alma e mergulhará minha mente em novas reflexões. Reconfortante abstrair que todos os seus escolhidos estão juntos nalgum lugar. Um campo florido iluminado pelos sorrisos resplandecentes de diversos entes queridos, cercado de pradarias onde o Scottie, a Princesa, o Popó e, agora, a Naná correm juntos transbordando de alegria esfuziante. Os trinados do Brasinha e seus parceiros compõem a trilha sonora.  
Lá inexistem as limitações dos meus sonhos, tampouco as restrições do meu mundo ou as agruras de todas as vidas. Muito menos os carmas e seus resgates. Libertos da angústia, do cansaço, da doença, do sofrimento e de inúmeras expiações, seres especiais transitam com a perfeição do levitar. Lugar ideal, numa dimensão ainda inalcançada, imperceptível e somente acessível, por enquanto, pelo portal de sua oferta. Dele, por ironia, queremos distância.
A complexidade de nossa existência tem tramas insondáveis. Sigo meu caminho procurando me afastar de sua persuasão duvidosa, enquanto meu imaginário se povoa de locais paradisíacos e reencontros esperados. Não me cabendo alternativas, rumo adiante. Choro as suas escolhas, abomino os desenlaces e me corroo de saudade. Nada atenua. Não importa o prolongamento do meu caminho, jamais me acostumarei à sua frieza.
E você, Naná, siga em paz. Com seu jeitinho tímido e especial, sua passagem por aqui nos trouxe muita alegria e felicidade. Espero que tenhamos retribuído à altura. Tenha certeza de que procuramos fazer o melhor desde aquele dia, há mais de uma década, quando já adulta você nos adotou.